31 de março de 2010

A barbárie como método

O assunto do dia é a greve dos professores em São Paulo e o protesto da Apeoesp, que culminou na queima de livros em uma via expressa da capital. Antes de tratar do assunto propriamente dito, permitam-me fazer uma breve digressão: No fatídico dia 10 de maio de 1933, o governo alemão queimou, em praça pública, centenas de títulos inconvenientes ao regime. Anos antes, o poeta alemão de origem judaica, Heinrich Heine, já havia alertado: "Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas". Heine estava certo! Sem a influência de autores como Einstein, Zweig, Mann, Freud, Kästner e Remarque, os alemães perderam a noção de civilidade e se tornaram reféns do pensamento nazista.

Não sei se os professores que integravam o protesto do último dia 26, estavam a par do episódio ocorrido na Alemanha, mas isso não diminui em nada o horror da cena protagonizada por eles. Também não vou entrar no mérito das reivindicações, porque não acho que exista algo capaz de justificar uma atrocidade como aquela. O Reinaldo Azevedo está coberto de razão ao chamar os manifestantes de tontons-maCUTs, pois é difícil diferenciar as ações dos sindicalistas filiados a CUT, dos bichos papões de François ‘Papa Doc’ Duvalier.

Infelizmente, sempre existe alguém disposto a fazer o papel de advogado do diabo. Soube por meio de um amigo que alguns professores tentaram minimizar o horror daquele ato dizendo que não eram livros, mas sim apostilas. De fato, foram apostilas, mas isso tem pouco ou nada a ver com o que está sendo discutido. Aquelas apostilas eram parte integrante da unificação dos currículos implementada pela Secretaria de Educação e deveriam servir de guia para os docentes. Todavia, os comandados da Apeoesp entendem que o currículo e o material didático deve ser lançado ao fogo, pois tolhe a "liberdade" dos professores. Basta dar uma olhada na imagem que ilustra esse post para ver o que essas pessoas entendem por liberdade.

Imagino que muitos de vocês, leitores, tenham visto um filme de Peter Weir chamado Sociedade dos Poetas Mortos. Pois bem! Neste filme, Robin Williams interpreta um professor com idéias revolucionárias que é convidado para trabalhar em uma escola conservadora. O personagem de Williams considera a literatura conservadora um grande obstáculo para o desenvolvimento dos estudantes e pede aos seus alunos que rasgue e joguem fora tudo aquilo que consideram dispensável para sua formação intelectual. A teatralidade com que o diretor, Peter Weir, conduz a cena faz com que o espectador se esqueça do absurdo contido no ato e passe a admirar aquela cena sórdida. Em Fahrenheit 451, de François Truffaut, os livros eram proibidos porque deixavam as pessoas infelizes. Quando descobertos, eram queimados pelos bombeiros. Sim, pelos bombeiros: os totalitários sempre invertem a lógica; sempre tentam fazer com que o mal se transforme num bem. Não é preciso dizer que as platéias mais, digamos... Descoladas, amaram tudo isso!

Cenas como essas nos convidam a refletir: é licito flertar com a barbárie para questionar ou mesmo reivindicar alguma coisa? Na opinião deste autor, é óbvio que não! Queimar livros é coisa dos nazistas da Alemanha do Reich; queimar livros é coisa dos comunistas chineses da Revolução Cultural de Mao; queimar livros é investir na barbárie como método de atuação. Uso a palavra método porque esse comportamento não é nenhuma novidade. Em 2000, José Dirceu compareceu a uma assembléia da Apeoesp e afirmou que "eles [os tucanos] têm de apanhar nas ruas e nas urnas". Dias depois, os sindicalistas da Apeoesp agrediram covardemente o governador Mário Covas.

Hoje, a Apeoesp participará de uma nova manifestação que pretende reunir 40 outros sindicatos e associações do funcionalismo no chamado "bota-fora" do governador José Serra. Há uma politização criminosa de movimentos grevistas e trabalhistas em São Paulo e a esta altura, é desnecessário demonstrar que a Apeoesp está em franca campanha eleitoral. O que podemos esperar desse novo ato de protesto? Mais livros queimados? Fazer greves para reivindicar melhores salários e condições de trabalho é uma prerrogativa constitucional e não tenho a menor pretensão de me insurgir contra isso. Quero apenas convidar o leitor a fazer uma reflexão: até quando a sociedade vai permitir que movimentos, sindicatos e partidos, tutelem a democracia na base da arruaça e do quebra-quebra?

Para finalizar, gostaria de lembrar que após aquele infeliz mês de maio de 33, em que os alemão acharam por bem queimar livros em ruas e praças, a poetisa Ricarda Hutch, que havia recebido o Prêmio Goethe em 1931, se retirou da Academia Prussiana de Letras e escreveu ao seu presidente: "A centralização, a opressão, os métodos brutais, a difamação dos que pensam diferente, os auto-elogios, tudo isso não combina com meu modo de pensar". Pois bem! Faço minhas as palavras dela.

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