30 de junho de 2010

O iogue e o dissidente

Um iogue octogenário que diz ter vivido mais de sete décadas sem beber ou comer tem causado espanto em cientistas do mundo todo. Prahlad Jani, de 83 anos, passou duas semanas sob constante observação de 30 médicos e de câmeras de filmagem, em um estudo que terminou em março deste ano. No período, ele não ingeriu nada, não urinou e nem defecou. O iogue alega que foi abençoado por uma deusa quando tinha oito anos e que isso lhe permite viver sem alimentos. Em 2003, segundo a BBC, ele já passara dez dias sob observação de uma outra equipe médica, também sem consumir nada, mas apresentando boa saúde mental e física.

Longe dalí, em uma pequena ilha do Arquipélago do Caribe, o estado de saúde de um outro homem que também não come e nem bebe nada continua se deteriorando. Seu nome é Guillermo Fariñas, psicólogo e jornalista que optou pela greve de fome para lutar contra os desmandos do governo cubano.

Tudo começou com a morte de um outro dissidente político chamado Orlando Zapata Tamoyo, no dia 23 de fevereiro deste ano. Tamoyo reivindicava melhores condições de vida para presos cubanos que permanecem detidos nas marmorras do regime castrista. Mas, depois de 85 dias de penúria, acabou falecendo. Sua morte coincidiu com a presença do presidente brasileiro Luis Inácio Lula da Silva, em Cuba. Indagado pelos jornalistas sobre este infeliz incidente, nosso guia se limitou a dizer "que é lamentável que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome".

Em maio de 1981, quando o ativista irlandês Bobby Sands morreu depois de 66 dias de greve de fome em protesto contra as condições carcerárias a que eram submetidos os seus companheiros e pelo direito de ser considerado prisioneiro político, Lula afirmou que os "tiranos tremem na presença de homens capazes de morrer por seus ideais". Aliás, o próprio Lula recorreu à ferramenta política da fome quando foi preso pela ditadura militar. Quer dizer, não exatamente, pois alguns anos depois ele confessou que sua greve de fome havia sido uma farsa. Mas isso não importa! O fato é que antes de se tornar presidente da república, e posar para fotos de braços dados com ditadores como Fidel e Raul Castro, Lula reverberava o autosacrifício como arma política.

Ao condenar os "homens capazes de morrer por seus ideais" e sair em defesa dos seus algozes, Lula descortina o lado mais sombrio da sua personalidade. Na filosofia lulista do direito, a Lei de Segurança Nacional brasileira que condenou a militante Dilma Rousseff a 6 anos de prisão (das quais cumpriu três) ou a legislação do apartheid que aprisionou Nelson Mandela por 27 anos, por exemplo, não são menos legítimas do que as provisões das democracias. Se violam os direitos humanos, não há nada que líderes de outros países possam fazer, salvo afirmar que gostariam que isso não acontecesse.

Mas vamos voltar a Guillermo Fariñas...

Após a morte de Tamoyo, um outro dissidente político decidiu fazer greve de fome para pedir a libertação de 26 detentos em péssimo estado de saúde. Seu nome é Guillermo Farinãs e seu pedido é bastante razoável, tendo em vista que o número de presos cubanos vivendo em condições absolutamente inumanas já está na casa dos milhares.

Infelizmente, os dirigentes cubanos se recusaram a atender ao seu pedido e depois de vários e vários dias sem comer, o seu estado de saúde se deteriorou. Um dos médicos que o acompanham, declarou que a saúde dele piorou por causa de uma infecção e que nos últimos três dias "tem se complicado cada vez mais". O quadro inclui problemas hepáticos, a infecção causada por uma bactéria chamada "estafilococo" e a confirmação médica de um coágulo na jugular. A equipe médica está fornecendo um anticoagulante para tratar a trombose e recomendou que ele permaneça em repouso absoluto para evitar que o coágulo se desloque. Contudo, isso é apenas um paliativo.

Farinãs sabe disso e já fez, inclusive, os preparativos para a sua morte. Ele deseja que o ex-presidente polonês Lech Walesa deposite flores sobre sua tumba. É pede ao músico Willy Chirino, exilado em Miami, que visite seu túmulo e cante Ya viene llegando la libertad (Já vem chegando a liberdade). "Hoje, que meu povo vive iludido, eu me sinto inspirado, e um som estou cantando, anunciando a todos os meus irmãos que nosso dia já vem chegando". Claro, seus pedidos só irão se realizar no dia em que os Castro baterem as botas e aquela ilha, enfim, se tornar um país democrático. Vamos torcer para que Raul não seja tão longevo quanto o seu irmão Fidel, do contrário o presidente polones e o músico exilado podem acabar morrendo antes de terem a chance de realizar o pedido de Fariñas.

Lembram-se do líder estudantil Pedro Luis Boitel? Pois é! Ele também morreu depois de uma greve de fome. Boitel, estudante de engenharia, não aceitou a ditadura de Fidel e "foi condenado a dez anos de prisão e encarcerado num estabelecimento particularmente duro: Boniato". Morreu, depois de 53 dias, sem nenhuma assistência médica. Naquela época, Cuba era vista como o paraíso na Terra. Foi a morte de Boitel que fez com que o mundo acordasse do sonho e atinasse para a realidade. Um dia, quando os cidadãos cubanos pararem de sacrificar as suas vidas em nome dos seus ideais, o mundo reconhecerá que foi omisso e tratou a ilha com menoscabo. Mas, enquanto isso não acontece, é de suma importância que o mundo continue a procura de soluções capazes de tornar a vida dos dissidentes políticos cubanos um pouco menos dolorosa.

Eu já tenho uma sugestão! Sugiro aos dissidentes políticos cubanos que se correspondam com o iogue indiano e peçam, em nome de tudo que é mais sagrado, a sua receita. É triste dizer isso, mas há menos que eles consigam passar dois, três, quatro meses sem comer... O resultado continuará a ser o mais trágico e desfavorável possível. Afinal, os Castro já provaram que os tiranos não tremem - e tampouco cedem - diante dos homens que estão dispostos a sacrificar as suas vidas por um ideal.

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Eu não sou um poste!

Acabo de assistir - com algum atraso, admito - a entrevista da candidata petista, Dilma Rousseff, ao programa de TV Roda Viva. Em um dado momento da entrevista, um jornalista perguntou a Dilma se ela era um poste e, claro, ela negou. Do ponto de vista de Magritte, ela tem razão. Quem aí já viu o quadro La Trahison des Images (abaixo), em que aparece a seguinte inscrição: "Isto não é um cachimbo".

Magritte estava certo, aliás, certíssimo! A pintura em si não é um cachimbo de verdade mas sim a sua representação. Ora, uma imagem não é uma coisa. O desenho de um cachimbo representa um cachimbo, mas não é um. Assim como a imagem de um poste continua sendo uma boa representação de… um poste.

A candidata ainda fez algumas digressões sobre isso e aquilo, mas nada que realmente interesse aos eleitores. O tucano José Serra foi mais econômico com as palavras e ao que parece, desistiu de tentar nos convencer que ele não é uma árvore!

A petista vai ganhar ou perder? Os isentos acham que ela já ganhou. Eu, que não tenho partido, mas tenho lado, ainda não sei qual será o resultado. É tão cedo para verdades definitivas! Por enquanto a única verdade definitivamente dessa eleição é que entre um poste e uma árvore o Brasil si fu...

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29 de junho de 2010

A Oceania do Caribe

No último dia 23 de junho, os democratas do mundo todo comemoraram uma das suas vitórias mais significativas sobre a tirania: a libertação da menina cubana Sandra Becerra Jova, de 11 anos, que foi retida durante quase meia década em Cuba pelas autoridades comunistas, contra a vontade dos seus pais que reclamavam a sua guarda.

O caso dessa menina é emblemático, pois ele demonstra que o empenho das democrácias é capaz de arrefecer o ímpeto comunista pela privação da liberdade. Este episódio é a prova de que a maneira mais eficaz de ajudar os cubanos a se libertarem do regime ditatorial imposto pelos Castro é a denúncia e a mobilização. Sem estas duas coisas, as entidades de direitos humanos, a imprensa e as autoridades civis e eclesiásticas, jamais tomarão conhecimento dos horrores a que a população cubana é constantemente submetida em nome de uma ideologia arcaica e sanguinária.

Sandrita, como ficou conhecida em nosso País, é filha dos engenheiros cubanos Vicente Becerra e Zaida Jova. Seus pais vieram ao Brasil para concluir a pós-graduação na Universidade de Campinas (Unicamp). Após experimentar liberdades básicas como o direito de ir e vir, por exemplo, o casal decidiu se estabelecer definitivamente no Brasil. Mas, para o seu pesar, a ditadura castrista não tolera dissidentes e tampouco é sensível as suas necessidades. Bastou que os pais de Sandra iniciassem os trâmites para que ela pudesse se unir a eles no Brasil, que o martírio da família começou.

O casal foi a Cuba, uma, duas, três vezes... Na esperança de trazer Sandra, consigo para o Brasil. Mas, infelizmente, foi tudo em vão. As autoridades cubanas insistiam em negar aqueles pais o direito natural de viverem com seus filhos e poder educá-los de acordo com os seus próprios princípios. Foi preciso que um jurista cubano exilado, Dr. Claudio Benedí, denunciasse o caso ante os chanceleres das Américas, durante a Assembléia Geral da OEA, e também diante da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos, para que o regime castrista se pronuciasse a respeito.

Como de costume, os comunistas alegaram que a denúncia do Dr. Benedí era falsa e serviu apenas para provocar um "escândalo desnecessário". As declarações soaram contraditórias, pois poucos dias depois o governo cubano comunicou ao Itamaraty que a menina seria liberada. É sempre assim! Primeiro lançam uma bravata com o intuito de demover o mundo democrático da sua empreitada. Diante da negativa das nações civilizadas, decidem capitular. É parte de um estratagema previamente enjandrado para diminuir o efeito da derrota sobre a população remanescente.

No fundo, o que os comunistas temiam é que este episódio criasse um "mau" precedente em relação a outros profissionais cubanos que estudam em nosso país. Um temor absolutamente infundado, pois tão logo o PT assumiu o poder no Brasil, as relações diplomáticas com Cuba se acentuaram. Quem não se lembra do caso dos dois boxeadores cubanos que fugiram da concentração durante o Pan e pediram asilo em nosso país? Ambos tiveram os seus pedidos veementemente negados pela diplomácia do governo Lula e foram obrigados a voltar a Cuba. Mais tarde, um deles conseguiu fugir e obteve refúgio na Alemanha. Quanto ao outro, ninguém mais teve notícias dele.

Sob o governo FHC, a história da menina Sandra teve um final feliz. Sob o governo Lula, a história dos boxeadores cubanos teve um final tremendamente infeliz. Lula, que se recusa a tratar o regime cubano como uma ditadura, argumenta que não podemos dar palpites na forma como os nossos vizinhos dirigem os seus países. Ora, se não podemos cometer ingerências o que estávamos fazendo em Honduras? Aquilo era um caso isolado? É óbvio que não! Está claro que no Brasil os amigos dos petistas têm direito a tudo, exceto a lei. Já os inimigos dos petistas... Estes não têm direito a nada, nem mesmo a lei!


Eleições em Cuba

No dia 25 de abril deste mesmo ano, o governo cubano realizou eleições para eleger os delegados das 169 Assembleias Municipais do Poder Popular. Estou certo que muitas pessoas desinformadas irão mencionar este fato como uma evidência de que Cuba NÃO é uma ditadura. Como se as eleições, por si só, fossem suficientes para assegurar o cumprimento de todas as garantias democráticas.

Tão logo o governo cubano convocou o pleito, os jornalistas órfãos do socialismo começaram a desfiar o seu rosário de mentiras. O site Cuba em Debate, por exemplo, argumentou que a imprensa mundial tem necessidade de omitir as informações referentes ao pleito para manter a falsa ideia de que Cuba é uma ditadura. O jornalista Juan Marrero chegou a dizer que isso "é perfeitamente compreensível, pois um dos componentes principais da guerra mediática contra a revolução cubana tem sido negar, escamotear ou silenciar a realização de eleições democráticas: as parciais, a cada dois anos e meio, para eleger delegados do conselho, e as gerais, a cada cinco, para eleger os deputados nacionais e integrantes das assembleias provinciais".

O que ele não disse é que a população foi tocada até as "urnas" como gado pelos famigerados CDRs (Comitês de Defesa da Revolução). Você já ouviu falar nesses Comitês? Os escritores Corinne Cumerlato e Dennis Rousseau elaboraram um verbete, bastante elucidativo, que pode ajudá-lo a compreender o que eles são:
CDR - Comité de Defensa a la Revolución (Comitê de Defesa da Revolução Cubana). A partir dos 14 anos de idade, todos os cubanos são obrigados a aderir ao CDR. "Cerca de 8 milhões de cubanos são membros do comitê de defesa da revolução de seu quarteirão, dirigido por um 'presidente, um responsável pela vigilância e um responsável ideológico'. Além de seu papel de vigilância 'dos inimigos da revolução e dos anti-sociais', os cerca de 120 mil comitês que controlam o país 'constituem uma grande força de impulsão para mobilizar o bairro por ocasião das reuniões e desfiles para defesa da revolução', afirmam os textos oficiais" (CUMERLATO, Corinne; ROUSSEAU, Denis. A Ilha do doutor Castro – a transição confiscada, pg. 55. Editora Peixoto Neto, São Paulo, 2001 - Tradução de Paulo Neves).
Como podem ver, enquanto figuras representativas da esquerda brasileira, como o cardeal Arns, Frei Betto e Luis Inácio Lula da Silva vêem na Cuba comunista "sinais" de um paraíso celestial, estes comitês evidênciam que aquela ilha é uma ante-sala do inferno. Aquilo que os membros proeminentes da esquerda apontam como um sinal de civilidade e democrácia é na verdade uma evdência incontestável de que os cubanos vivem um pesadelo de proporções orwellianas. Um dia, a imprensa comunista noticia que 9 milhões de pessoas saíram as ruas para protestar contra os desmandos dos países imperialistas causadores da miséria cubana e no outro, as mesmas 9 milhões de pessoas precisam ser coagidas pelos CDR a dar suas assinaturas em um gesto de apoio ao regime comunista. Isso não lhes parece estranho?

George Orwell - que lançou o seu livro "1984" dez anos antes do início da revolução cubana - ficaria supreso ao ver no sistema comunista tantas analogias com os métodos de controle psicossocial que ele descreveu em sua novela-ficção. "Se todas as pessoas aceitam a mentira que o Partido impõe, se todos os documentos apresentam a mesma versão, então a mentira passa à História e se converte em verdade", escrevia Orwell, definindo essa situação artificial de controle mental como um literal "pensamento duplo". Na Oceania de Orwell, até o ato de deixar transparecer no rosto expressões consideradas "impróprias", já consistia uma infração passível de punição: era o chamado "rosto crime". Na Cuba de Fidel, aí daquele que parecer encimesmo e taciturno enquanto grita: "Viva la Revolucion"!

A eficácia do aparato comunista no controle psicossocial da população é tão grande que transmite a falsa impressão de que a realidade totalitária é uma situação monoliticamente sólida, sem a qualquer possibilidade de ser enfrentada ou mudada. Daí o grau altíssimo de aprovação da revolução entre os cubanos com menos de 60 anos. Claro, a coisa é um pouco diferente entre aqueles que possuem mais de 60 anos. Estes já estão escolados em ditaduras, pois viveram sob o regime de Baptista e sabem que estão à mercê de um poder que é quase onipresente. Para sobreviver, tanto um quanto o outro são obrigados a participar das manifestações e a assinar documentos que o "Big Brother" determina.

A vantagem do povo cubano sobre o povo da Oceania orwelliana, é que o "Big Brother" caribenho, ao contrário do seu par na novela, não conseguiu "converter a mentira em verdade". Todos sentem, inclusive os mais altos hierarcas, que esse edifício de mentiras, apesar das aparências de solidez, na realidade está cada vez mais frágil e vulnerável. Por isso é importante que os cidadãos brasileiros se manifestem ante os candidatos presidenciais, solicitando-lhes um compromisso público para que o futuro governo atue com firmeza no campo diplomático e humanitário, resguardando a vida dos cidadãos cubanos.

A denúncia é a forma mais efetivas de ajudar os cubanos, pois à exemplo do aconteceu no caso da menina Sandra Becerra Jova, ela pode sensibilizar os organismos internacional e fazer com que eles se pronunciem a respeito dessa situação de injustiça flagrante. As manobras orwellianas do regime cubano para aprovar a reforma constitucional que estabelece como "intocável" o regime comunista, devem ser denunciadas no mundo inteiro e transformadas em um gigantesco "caso Sandra", para que comova a opinião pública mundial. Colaborar para que isto se dê, é algo que está ao alcance de cada brasileiro e pode ser feito já nas próximas eleições.

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24 de junho de 2010

Um apartheid às avessas

Mandela bem que tentou, mas o racismo ainda está longe de ser extirpado da África do Sul. Apesar de todos os esforços do primeiro presidente negro para sepultar as velhas rivalidades e construir uma unidade nacional, o país se curvou aos desígnios de um grupo revanchista que assim que chegou ao poder, mudou nomes de ruas, caçou direitos políticos da minoria branca e adotou um sistema de governo que se parece muito com o antigo apartheid.

Isso é o que mostra a reportagem de Andre Fontenelle, para a revista Época dessa semana:
"Quem entrou na escola depois de 1994 não deveria estar sujeito à ação afirmativa", disse um jovem branco, referindo-se à política de cotas implantada depois do apartheid para reduzir a desigualdade entre brancos e negros. "Em um concurso para 50 vagas de piloto de helicóptero na polícia, havia 150 candidatos brancos. Nenhum foi aprovado", queixou-se outro branco. "Vocês se recusam a nos devolver nossas terras porque dizem que não sabemos cultivá-las", retrucou um negro. Um debatedor branco decidiu se exprimir em africânder, e não em inglês. "Esse comportamento de perguntar em africânder é intolerável!", protestou um negro. "É meu direito falar em minha língua", respondeu outro branco, tomando as dores do colega.

Basta assistir meia hora deste debate para se ter uma ideia do abismo que separa os sul-africanos pela cor da pele. O fim relativamente pacífico do apartheid deixou sem solução uma série de questões que caberá à nova geração resolver. Para os negros, o controle da economia continua injustamente na mão dos brancos; estes, por sua vez, se sentem cidadãos de segunda classe num país em que todas as leis parecem favorecer o antigo oprimido.

A minoria caucasiana enfrenta um problema inédito – a pobreza. "Dos 4 milhões de brancos da África do Sul, 750 mil vivem com menos de 4 mil rands (cerca de R$ 940) por mês", diz Tiaan Esterhuizen, de 25 anos, dirigente da Helpende Hand, organização dedicada a combater a "pobreza branca". "Os brancos pobres estão entregues à própria sorte, porque não têm direito à ajuda do governo", afirma Ernst Roets, advogado de 24 anos e líder do AfriForum, entidade de direitos civis que luta pelos direitos das minorias. Segundo Roets, há 70 favelas de brancos nos arredores de Pretória: "Se alguém fala que é preciso ajudar os brancos, é acusado de racismo". A nova geração de brancos defende o fim, ou pelo menos a flexibilização, do conjunto de leis que concede aos negros a prioridade no recrutamento das empresas.
Infelizmente, a íntegra da matéria só está disponível para assinantes.

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Katyn na Dicta & Contradicta

A última edição da revista Dicta & Contradicta traz uma excelente matéria sobre um dos eventos mais sombrios da história da humanidade: o Massacre de Katyn.

Em abril de 1940, 22.500 oficiais poloneses foram executados com uma bala na nuca e enterrados em vala comum na floresta de Katyn, perto de Smolensk. Os responsáveis por essa bárbaridade foram os comandados de Lavrentiy Beria, antigo direitor da NKVD e amigo íntimo de Stálin. Beria também foi o responsável pelo Grande Expurgo de Stálin, na décadade 30. Uma ação persecutória que liquidou cerca de dois terços dos quadros do Partido Comunista, ao menos 5.000 oficiais do Exército (acima da patente de major), 13 generais de cinco estrelas do Exército Vermelho e inúmeros civis. Como prerrogativa o Politburo declarou que todas essas pessoas eram "inimigos do povo".

Aliás, essa foi a mesma justificativa apresentada pelo tirano quando ordenou a morte daqueles polonêses na floresta de Katyn, no final da década de 40. Felizmente, essa carnificina não passou desapercebida. Um ano depois, em 1941, os alemães entraram no território soviético e descobriram do que os comunistas eram capazes em nome da sua ideologia assassina. Mas, como todo sistema comunista se alicerça única e exclusivamente na mentira... Com a quebra do "Pacto Molotov-Ribbentrop", em 1941, a troika Soviética passou a atribuir o massacre de Katyn aos nazistas, embora toda Polônia soubesse que a carnificina tinha sido ordenada por Stalin. Aos recalcitrantes que ousassem levantar a voz contra a mentira soviética, caia a mais virulenta repressão, não raro acompanhada de novos fuzilamentos.

Em 1990, o presidente russo Mikhail Gorbatchev assumiu a culpa pelo Massacre de Katyn, em uma conversa com Lech Walessa. Mas os comunistas, afeitos a dualética marxista, fizeram de tudo para desmenti-lo. Alguns historiadores, advogados, políticos e jornalistas argumentam que os documentos que serviram de base para a confissão de culpa de Gorbatchev são falsos e foram fabricadas por forças hostis à URSS para desacreditar o regime soviético. Os defensores da versão oficial chegaram a organizar uma mesa redonda com o tema "Katyn - Aspectos Jurídicos e Políticos", na qual participaram apenas os defensores da versão oficial divulgada por Stálin. Na ocasião, os oficialistas soviéticos chegaram a seguinte conclusão: Hitler havia ordenado a construção de um bunker em Smolesk e após a sua execução, fuzilou todos os prisioneiros que participaram da sua construção. Uma hipótese que de tão absurda, chega a esbarrar no ridículo!

Em 2004, após 14 anos de investigações, os tribunais militares soviéticos arquivaram o dossiê de Katyn, alegando que se tratava de um crime comum que já havia prescrito. Nada mais compreensível e, por extensão, revelador. Desde Nikita Khruschev, com a sua fraudulenta política de "coexistência pacífica", passando por Leonid Brejnev, Andropov, Chernenko e Gorbachev (para não falar em Stalin, óbvio), todos os ditadores da URSS trataram de manter os registros e documentos do massacre de Katyn soterrados nos repositórios secretos do Partido Comunista, visto que a "exposição de tais fatos poderia trazer conseqüências desagradáveis para o Estado Soviético e o socialismo".

Em 2010, a pantomima criada pelos historiadores marxistas finalmente encontrou o seu fim. Naquele ano, o presidente Dimitri Medvedev decidiu abrir os arquivos sobre o Massacre de Katyn pondo fim a um processo que havia se iniciado em 1991, com Boris Yetsin. Nestes aquirvos, foi encontrada uma nota - assinada por Beria - que atesta a culpa dos soviéticos no massacre. No texto, o ex-diretor da NKVD propõe que todos os oficiais poloneses presos durante a invasão soviética da Polônia, em 1939, sejam sumariamente executados. Apesar disso, o governo russo não emitiu nenhuma nota de pesar; nenhum pedido de desculpas as famílias das vítimas.

Temos dezenas de filmes sobre os campos de concentração nazistas, sobre as matanças de Hitler. Mas não me recordo de nenhum filme sobre os gulags soviéticos ou sobre os Massacres stanilistas. Pergunto-me porque razão, motivo ou circunstância, nenhum cineasta se interessou em filmar "Arquipélago Gulag", de Soljenítsin? Óbvio que essa é uma pergunta capsciosa! A maioria das pessoas envolvidas com a idustria cinematografica está comprometida - em maior ou menor grau - com a ideologia que propiciou esses massacres. Nenhum deles está preparado para abrir mão da "fé" que abraçou com tanta veemência. Nenhum deles está preparado para reconhecer que o "novo homem" precognizado pelos socialistas é na verdade um tirano sanguinário.

Na falta de um cineasta de peso como Spielberg ou Polansky, coube ao cineasta polonês Andrzej Wajda, narrar a história do Massacre de Katyn. E ele o fez maravilhosamente bem! Wajda deu vida a ferida acompanhando, pelos olhos da esposa de um oficial polonês, os caminhos tortuosos que o Massacre de Katyn abriram em seu país. Ele foi e voltou no tempo ara mostrar o impacto na vida de cada pessoa afetada direta ou indiretamente pelos massacres e conseguiu produzir um equilibrio perfeito entre estes momentos de grande impacto - a produção é impecável - e as reiteradas tentativas da população de retomar uma rotina normal após a guerra.

Ao dramatizar o sofrimento e a dor moral dos poloneses (em especial, das polonesas) que resistiam à mentira comunista institucionalizada, o filme do diretor polonês robustece a arte e faz do cinema um instrumento a serviço da consciência humana. Wajda não é um falso artista, o enganador, digamos, na linha de um Cacá Diegues, tipo que se esconde por trás da mistificação ideológica para justificar a mentira utópica. O polonês trabalha duro, e de forma inspirada, na busca de um sentido transcendente que lhe permita inquirir a verdade perversa do seu tempo com senso moral e independência.

Infelizmente, nem mesmo o sucesso do filme foi suficiente para demover as críticos e intelectuais brasileiros da mentira contada pelos soviéticos. Não houve qualquer menção ao filme de Wajda na imprensa especializada e mesmo nos grandes jornais, a cobertura do seu lançamento foi pífia. Lembro-me que na ocasião do lançamento do filme, a secção de serviço "Rio Show", no Segundo Caderno de "O Globo", disse o seguinte: "Os bastidores do Massacre de Katyn, meses depois da invasão nazista na Polônia, em 1939". Apenas isso! Não sei se foi por ignorância ou cínismo, mas o fato é que a imprensa brasileira - à exemplo do que acontece lá fora - se recusou a cobrir um dos episódios mais torpes da 2ª Guerra Mundial, que eliminou praticamente toda elite militar polonesa e foi perpetrado pelos comunistas à serviço do Kremlin. Uma lástima!

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22 de junho de 2010

Por que será que alguns escritos permanecem sempre atuais?

- De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.
(Senado Federal, RJ. Obras Completas, Rui Barbosa. v. 41, t. 3, 1914, p. 86)

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